A reportagem da página 3 do caderno Ilustrada de hoje me surpreendeu e me senti no dever de escrever rebatendo alguns pontos do texto que exigem esclarecimentos. Há oito anos sou colaboradora do Paço das Artes, como crítica de arte da Temporada de Projetos, e minha convivência profissional com a diretora Daniela Bousso sempre foi pautada por respeito e incentivo ao diálogo e à construção coletiva de projetos e de conhecimento. Por isso me chama a atenção que o documento a que a Folha teve acesso classifique a diretora como “desrespeitosa” ou “autoritária”; não conheço o teor deste levantamento interno que teria sido realizado a pedido do conselho do Paço e do MIS, mas posso afirmar, com base em minha experiência profissional, que as duas instituições que Daniela Bousso dirige têm como característica principal a escuta constante e atenta das demandas e inquietações do meio de arte contemporânea e de novas mídias em São Paulo.
Na qualidade de público que acompanha de perto a programação das duas instituições há dez anos, posso afirmar com absoluta certeza que supostas “indefinição de planos de trabalho e exposições” e “decisões erráticas” apontadas na matéria são inconsistentes e incoerentes, uma vez que a excelência do programa de exposições de ambas as instituições é reconhecida nacional e internacionalmente. Inclusive, foi pela constância de uma programação engajada nas discussões da arte contemporânea que Daniela Bousso inseriu o Paço das Artes no mapa, hoje um espaço de referência. Do mesmo modo como vem fazendo à frente do MIS, desde sua reforma e devolução do museu à cidade de São Paulo até a programação considerada de ponta no que diz respeito à conexão entre cinema, fotografia e novas mídias. Nos últimos anos, basta mencionar mostras de Chris Marker, Gary Hill, Yang Fudong Bill Seaman e Pipilotti Rist, no plano internacional, e de Letícia Parente, Vik Muniz, Luiz Duva, Cassio Vasconcellos e Miguel Rio Branco, nomes de altíssima relevância no contexto brasileiro.
Itália pede ajuda à população para proteger sua arte
Por Rachel Sanderson
FLORENÇA (Reuters) - A visão das pernas de David, de Michelangelo, sendo arrancadas seria capaz de virar seu estômago? Se você visse a tela da Vênus de Botticelli ser rasgada, isso levaria lágrimas a seus olhos? É isso o que o governo italiano espera.
A poluição, o vandalismo e a ação do tempo acabaram fazendo a conta da manutenção do patrimônio artístico e cultural da Itália chegar a um nível que o governo afirma estar além de suas condições financeiras de cobrir. Por isso o país, repleto de obras de arte, resolveu apelar aos cidadãos para cobrir o rombo.
Mas, ciente de que pedidos de fundos costumam ser mal recebidos no país, o governo optou por uma tática de choque.
Nas próximas semanas, os italianos vão enfrentar uma campanha intensa de publicidade na televisão, imprensa escrita e outdoors, mostrando cenas da suposta destruição dos maiores ícones culturais do país, acompanhadas do slogan "sem sua ajuda, a Itália corre o risco de perder algo".
Os organizadores da campanha esperam que a visão assustadora da estátua de David sem pernas ou de "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci, com seus discípulos apagados vai assustar a população, levando-a a ajudar na manutenção dos sítios culturais do país, um terço dos quais são considerados em estado de emergência.
Uma campanha de levantamento de fundos, como essa, não surpreenderia a ninguém nos EUA, Grã-Bretanha ou França, países que também possuem um patrimônio cultural imenso e recursos públicos limitados.
Na Itália, porém, o patrocínio das artes sempre coube à elite ou ao Estado, nunca à população em geral.
O MELHOR DA ITÁLIA
Ledo Prato, secretário-geral da fundação CittaItalia, que encabeça a campanha e está recolhendo os donativos, disse que: "Sem seu patrimônio cultural a Itália seria um país anônimo, e as pessoas estão se dando conta disso. E elas entendem que esse patrimônio gera não apenas prestígio e fama, mas também receita e desenvolvimento econômico."
Com isso em mente, os organizadores da campanha querem usar o dinheiro levantado para cuidar de obras de arte que interessam aos turistas e que muitas vezes estão nas regiões mais pobres do país. Quando os italianos doam dinheiro, por correio ou email, eles também têm o direito de enviar sugestões.
De acordo com Prato, um sítio que precisa urgentemente de trabalhos de conservação é Canne della Battaglia, o campo de batalha, situado no calcanhar da Itália, onde Aníbal derrotou os romanos em 216 a.C.
Outro é o Palácio Real da cidade de Caserta, no sul do país, erguido no século 18.
Os organizadores dizem que a carência de manutenção é grande no país, que tem 4,4 milhões de obras de arte.
Para 2005, o governo italiano reservou 32 milhões de dólares de seu orçamento para a manutenção de centenas de igrejas, museus, palácios e conventos. É menos do que a metade do que seria preciso, de acordo com estudos independentes.
Para alguns italianos, o problema é grande demais para ser resolvido apenas pela Itália e seus cidadãos.
Ivano Celentano, de 17 anos, opinou: "Nem o Estado nem os italianos deveriam ser obrigados a pagar tudo. Este patrimônio cultural pertence ao mundo inteiro. Os países mais ricos do mundo deveriam doar uma porcentagem de seu PIB para cuidar dele."
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Gostaria de tecer breves observações sobre alguns trabalhos que, a meu ver, partiram de uma linha de reflexão muito similar sobre o sentido de ocupar: as propostas de Renata Padovan, Ana Teixeira e Fábio Flacks.
Ao entrar no Paço o visitante defrontava-se com o trabalho de Renata Padovan: a projeção de um relógio na parede oposta a um acolhedor sofá.O relógio funcionava em tempo real (notei isso logo que fui checar a hora do relógio projetado com o meu), uma vez que a imagem projetada era de um relógio despertador comum, posicionado no campo de ação do projetor.
É interessante pensar no tempo de ocupação. Quanto tempo o tempo ocupa em nossas vidas? Como ocupamos nosso tempo? Será que deixamos que o tempo nos ocupe?
Cada visitante que passava pelo relógio tinha sua imagem fotografada por Renata e assim a artista obteve um registro do fluxo humano que ocupou as horas, minutos e segundos de seu projeto. Impressionante como numa situação dessas tem-se a exata noção de como o tempo passa rápido, devorando e deixando-nos inertes. O ócio é uma forma de ocupar o tempo.
Ana Teixeira parece também ter pensado no ócio como forma de ocupação. Na verdade ela propôs um jogo: “procuram-se desocupados”.
Os desocupados que ela procurava eram as pessoas que pudessem ocupar-se do convidativo espaço de seu trabalho, no qual estavam disponíveis filmes e livros para o público utilizar confortavelmente: o espaço estava repleto de gostosas almofadas.
Quem estivesse desocupado o suficiente, poderia desfrutar dessas benesses por horas a fio enquanto a artista os observava e desenhava.
(Ana tem um especial interesse pelo registro, por meio do desenho, de pessoas em estado de repouso.)
Fábio Flacks ocupou-se de uma ação vazia como maneira de ocupar seu tempo no terceiro turno, a fim de manter-se ativo e presente no local. O artista retomou uma tela a óleo que havia iniciado alguns anos atrás, mas mantido interminada até então. A própria técnica da pintura a óleo sugere essa ação vazia, uma vez que talvez não secasse o suficiente a tempo de ser terminada durante a ocupação. Em tempo: Flacks pintava uma natureza morta composta por um arranjo de vidros vazios (tão vazios como a sua ação), realizada a partir de fotografias que ele mesmo fez.
Achei interessante a proposta de um dos colegas do grupo de críticos de agrupar em posts do blog, os artistas que ocuparam um mesmo espaço no projeto de Ocupação (cada um durante um turno) e refletir sobre o que aconteceu nesses espaços.
Eu gostaria de adicionar algumas considerações sobre os trabalhos de Paulo Gaiad e Marga Puntel, levando em conta apenas os 2º e 3º turnos da Ocupação.
Paulo Gaiad revestiu o chão da área de sua proposta, Atestado da Loucura Necessária, com papel jornal para criar o pasto do trabalho. Esse papel foi colado no chão com cola de benzina, para ser de fácil remoção. Terminado o 2º turno, quem ocupou o espaço do Atestado... de Gaiad foi Marga Puntel.
Conversamos sobre algumas propostas que ela tinha em mente para o projeto da Ocupação, mas, para minha surpresa, Marga expôs a fotografia de uma das faxineiras do local limpando o chão com rodo.
Quando vi o trabalho pronto, comentei minha surpresa e fiquei pensando sobre esse trabalho.
Marga comentou que ia ao Paço diariamente observar o que estava acontecendo na Ocupação para concluir que proposta gastaria de apresentar ali, quando notou que todo o dia a faxineira tentava insistentemente dar brilho ao chão do espaço da artista.
A faxineira teria comentado: - vamos tentar deixar o chão com o mesmo brilho que tinha antes da aplicação da cola de benzina do trabalho do outro artista.
A meu ver, existiu uma ligação real entre as propostas de Gaiad e Marga, embora os artistas não tenham pré-concebido isto e talvez nem se conheçam (não podemos esquecer que os espaços foram sorteados).
Quanto mais efêmera é a circunstância vivida, mais incontrolável é o desejo de registrar, documentar, fotografar tudo, detalhe por detalhe, o máximo possível. No projeto Ocupação, nove entre dez artistas viram-se consumidos pela compulsão do registro. Quando a documentação não foi a obra, foi registro pessoal. Del Pillar Salum, lá no primeiro turno, resistiu um pouco quando opinei que seu trabalho estruturava-se sobre o ato de registrar as manipulações dos outros artistas. Fotos de mãos de artistas construindo seus trabalhos. "Ora, toda fotografia é produção de evidências", argumentou ela, dizendo que o intuito não foi documentar, mas construir junto. Sim, uma coisa não elimina a outra, e o próprio título do trabalho, "memórias íntimas", remete à necessidade de reter, lembrar, guardar.
Em Buenoz sim, a fotografia assumiu função bem diversa à documentação de processo. Chegamos à conclusão que o que acontecia em seu estúdio fotográfico, no momento em que ele perguntava ao fotógrafo visitante: "Qual a cor da vida ?" era o "alargamento de um elo" entre essas duas pessoas; uma relação com tempo de validade, que acontecia dentro da duração do timer programado na câmera. Ou seja, a fotografia de Buenoz é agente de um acontecimento. O registro é o de menos.
Em Beth Moysés, o que fica, é sempre o registro da performance. Mas, em Mariana Lima, existe um objeto. E existe a performance desse objeto pelo espaço. E existe o registro desse passeio, funcionando como uma âncora que não deixa que o objeto desapareça em sua mobilidade total. O objeto subiu escadas, pousou sobre barro seco, desapareceu diante um vidro, mas sempre foi parar no álbum de retratos que a artista montou na parede. Mas… qual o problema em que a obra aconteça sem deixar rastros? Nos idos anos 30, Flavio de Carvalho foi suficientemente despojado para praticar suas "experiências" sem documentá-las.
"Palpar psiquicamente a emoção tempestuosa da alma coletiva, registrar o escoamento dessa emoção, provocar a revolta para ver alguma coisa do inconsciente", é o objetivo de Experiência nº2, livro que documenta em texto a revolta coletiva provocada pela ação de Flavio de Carvalho de atravessar em sentido contrário uma procissão de Corpus Christi usando um boné. A Experiência nº 2 foi documentada em texto, mas da Experiência nº 1 não se conhece nem o tema.
Há registros e registros. Uns assumidos, outros dissimulados, outros perdidos. D'Alessandro documentou percursos nas quatro direções cardeais a partir do Paço. Renata Padovan reteve em imagens a passagem do tempo. Casa Blindada produziu um diário. Ana Teixeira utilizou-se do desenho para colecionar os momentos de desocupação. Patricia Osses vestiu-se de branco para fotografar seus homens dormindo e, como fotógrafa, incorporou-se à instalação.
Regina Johas documentou e não mostrou pra ninguém. Por sinal, começou nela essa inquietação sobre a soberania do registro. "A gente só consegue reter as coisas se a gente tem fotos. Mas, o que vivemos não é o excesso de mídias, é a falência da memória", disse ela num bom momento do tatame. Agora, estamos combinando de marcar um dia pra ver os registros.
Lucila Meirelles tematizou seu projeto na memória, mas arrisco-me a pensar que a memória permeou as ocupações de todos que estiveram no paço nos últimos meses. Atire a primeira pedra quem tiver resistido à tentacão do registro.