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viajar ou fotografar

Quanto mais efêmera é a circunstância vivida, mais incontrolável é o desejo de registrar, documentar, fotografar tudo, detalhe por detalhe, o máximo possível. No projeto Ocupação, nove entre dez artistas viram-se consumidos pela compulsão do registro. Quando a documentação não foi a obra, foi registro pessoal. Del Pillar Salum, lá no primeiro turno, resistiu um pouco quando opinei que seu trabalho estruturava-se sobre o ato de registrar as manipulações dos outros artistas. Fotos de mãos de artistas construindo seus trabalhos. "Ora, toda fotografia é produção de evidências", argumentou ela, dizendo que o intuito não foi documentar, mas construir junto. Sim, uma coisa não elimina a outra, e o próprio título do trabalho, "memórias íntimas", remete à necessidade de reter, lembrar, guardar.

Em Buenoz sim, a fotografia assumiu função bem diversa à documentação de processo. Chegamos à conclusão que o que acontecia em seu estúdio fotográfico, no momento em que ele perguntava ao fotógrafo visitante: "Qual a cor da vida ?" era o "alargamento de um elo" entre essas duas pessoas; uma relação com tempo de validade, que acontecia dentro da duração do timer programado na câmera. Ou seja, a fotografia de Buenoz é agente de um acontecimento. O registro é o de menos.

Em Beth Moysés, o que fica, é sempre o registro da performance. Mas, em Mariana Lima, existe um objeto. E existe a performance desse objeto pelo espaço. E existe o registro desse passeio, funcionando como uma âncora que não deixa que o objeto desapareça em sua mobilidade total. O objeto subiu escadas, pousou sobre barro seco, desapareceu diante um vidro, mas sempre foi parar no álbum de retratos que a artista montou na parede. Mas… qual o problema em que a obra aconteça sem deixar rastros? Nos idos anos 30, Flavio de Carvalho foi suficientemente despojado para praticar suas "experiências" sem documentá-las.

"Palpar psiquicamente a emoção tempestuosa da alma coletiva, registrar o escoamento dessa emoção, provocar a revolta para ver alguma coisa do inconsciente", é o objetivo de Experiência nº2, livro que documenta em texto a revolta coletiva provocada pela ação de Flavio de Carvalho de atravessar em sentido contrário uma procissão de Corpus Christi usando um boné. A Experiência nº 2 foi documentada em texto, mas da Experiência nº 1 não se conhece nem o tema.

Há registros e registros. Uns assumidos, outros dissimulados, outros perdidos. D'Alessandro documentou percursos nas quatro direções cardeais a partir do Paço. Renata Padovan reteve em imagens a passagem do tempo. Casa Blindada produziu um diário. Ana Teixeira utilizou-se do desenho para colecionar os momentos de desocupação. Patricia Osses vestiu-se de branco para fotografar seus homens dormindo e, como fotógrafa, incorporou-se à instalação.

Regina Johas documentou e não mostrou pra ninguém. Por sinal, começou nela essa inquietação sobre a soberania do registro. "A gente só consegue reter as coisas se a gente tem fotos. Mas, o que vivemos não é o excesso de mídias, é a falência da memória", disse ela num bom momento do tatame. Agora, estamos combinando de marcar um dia pra ver os registros.

Lucila Meirelles tematizou seu projeto na memória, mas arrisco-me a pensar que a memória permeou as ocupações de todos que estiveram no paço nos últimos meses. Atire a primeira pedra quem tiver resistido à tentacão do registro.


Escrito por Paulete's às 19:08:20
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Quando o rei fica acuado no tabuleiro

Sob o singelo título Exposição de fotografia "Jardins do Paço", Alberto Simon ocupou um pequeno espaço da instituição com 24 fotografias, expostas duas a duas, prensadas entre vidros, os pares organizados sobre uma mesma parede. Em texto de apresentação à pequena curadoria, o crítico Joelmir Maracandinsky (sic) explica tratar-se de uma coletiva, em que cinco artistas foram convidados a registrar, à luz de sua poética, o entorno do Paço das Artes. Seriam eles, lemos, "a francesa Claudette Moireaux, a japonesa Akemi Masuko, o alemão Jochen Schrott, o brasileiro André Pedreira e o polonês Jakso Polka". O texto segue esmiuçando as especificidades do olhar de cada um dos artistas sobre o tema proposto: Moireaux dedicou-se a close-ups de flores, Schrott privilegiou o contraste entre natureza e arquitetura, Masuko conciliou estes contrastes valendo-se da tradição estética oriental, Pedreira focou-se na cor e, Polka, na composição all-over, explica-nos irônico o suposto Maracandinsky. O xeque-mate de Alberto Simon às convenções da crítica e da curadoria no contexto da arte contemporânea levanta uma importante questão a ser pensada no âmbito das propostas apresentadas nesta "Ocupação".

 

Por exemplo, na versão precária do blog "Quebra de Padrão", do Canal Contemporâneo, instalada em uma parede pintada de preto no Paço das Artes, alguém escreveu, com giz: "O quê exatamente justificaria a participação do Canal como proposta de caráter efetivamente 'artístico' neste ou em outros eventos?"; há aqui uma espécie de revolta contra o fato de as regras do jogo aparentemente estarem sendo burladas. Mas quem disse que existem regras? Ou, melhor, quem disse que não é parte essencial deste jogo justamente burlar as suas regras? Ao xeque-mate de Simon, junta-se o movimento do Canal Contemporâneo no tabuleiro: espécie de novo lance neste xadrez das artes, que torna o xeque-mate ineficiente, porque já não entende como alvo de sua ação uma ou outra peça. A um poder descentralizado, o trabalho da artista Patrícia Canetti responde com uma ação igualmente difusa: uma proposta de romper com os padrões estagnados do meio das artes -que implicam em que artista faça obra, crítico faça texto, curador faça exposição, a(r)tivista faça política etc.- e colocar artista para fazer texto, curador para fazer política, crítico para fazer obra e a(r)tivista para fazer exposição, ou outras combinações/contaminações.

 

Uma miríade de possibilidades de movimentos sobre um tabuleiro que é percorrido pelo visitante com o corpo, acionando aleatoriamente os lances, é a proposta de Rachel Zuanon para a "Ocupação": com a instalação interativa "Blindness", a artista chama a atenção para "o invisível inconcreto de nossa desatenção", em suas palavras. Aqui, a crítica subjacente nos trabalhos comentados acima encontra a formalização mais interessante: esta deriva a que estamos todos submetidos no campo da produção contemporânea pode resultar em cegueiras diversas: ou fechamos os olhos ao que não entendemos (e talvez perdamos o melhor da festa) ou percorremos cuidadosos esta espécie de breu, humildes em relação ao alcance limitado de nossa visão (ou à nossa desatenção), e nos aventuramos a tatear o inconcreto, a vislumbrar o invisível.



Escrito por jul às 10:22:12
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em homenagem aos seus 35 anos

muito se falou do uso político de termos, de estratégias, de obras e até de artistas que teria sido feito durante a "ocupação" no paço das artes; do uso que se fez do próprio paço das artes neste evento que comemora seus 35 anos de existência pouco foi dito. não era um pressuposto, e de fato apenas alguns artistas idealizaram seus projetos com este dado em mente: o aniversário do paço. o que significa esta instituição para a cidade de são paulo e para o mundo das artes? o que implica a celebração de seus 35 anos? domitilia coelho responde a esta pergunta com o trabalho que apresentou no terceiro turno: a artista foi buscar as plantas do projeto original daquele edifício (que deveria, na realidade, ter sido um grande complexo cultural, envolvendo não apenas artes, mas cinema, teatro e música) e construiu sobre elas uma ficção, além de ter se apropriado do espaço que originalmente seria destinado à construção de um jardim para realizar um ritual em lembrança e em resposta à utopia não realizada. neide jallageas e as outras artistas do grupo "cameralenta" remexem também na história do paço no trabalho "futuro do pretérito", captação de imagens, com câmeras de orifício, do esqueleto esquecido no terreno atrás da instituição. algumas das fotografias e maiores detalhes sobre o projeto podem ser conferidos no endereço: http://nacameralenta.blogspot.com/; também a artista niura bellavinha fez, a seu modo, uma arqueologia do terreno que a instituição poderia ter ocupado. propostas de artistas que participaram de outros turnos também vêm à memória quando o assunto são os 35 anos do paço, como as de raquel kogan, jorge menna barreto e fábio tremonte (nos vídeos que fez passeando pelas páginas dos catálogos do paço).

Escrito por jul às 11:45:10
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