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Por Rachel Sanderson
FLORENÇA (Reuters) - A visão das pernas de David, de Michelangelo, sendo arrancadas seria capaz de virar seu estômago? Se você visse a tela da Vênus de Botticelli ser rasgada, isso levaria lágrimas a seus olhos? É isso o que o governo italiano espera.
A poluição, o vandalismo e a ação do tempo acabaram fazendo a conta da manutenção do patrimônio artístico e cultural da Itália chegar a um nível que o governo afirma estar além de suas condições financeiras de cobrir. Por isso o país, repleto de obras de arte, resolveu apelar aos cidadãos para cobrir o rombo.
Mas, ciente de que pedidos de fundos costumam ser mal recebidos no país, o governo optou por uma tática de choque.
Nas próximas semanas, os italianos vão enfrentar uma campanha intensa de publicidade na televisão, imprensa escrita e outdoors, mostrando cenas da suposta destruição dos maiores ícones culturais do país, acompanhadas do slogan "sem sua ajuda, a Itália corre o risco de perder algo".
Os organizadores da campanha esperam que a visão assustadora da estátua de David sem pernas ou de "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci, com seus discípulos apagados vai assustar a população, levando-a a ajudar na manutenção dos sítios culturais do país, um terço dos quais são considerados em estado de emergência.
Uma campanha de levantamento de fundos, como essa, não surpreenderia a ninguém nos EUA, Grã-Bretanha ou França, países que também possuem um patrimônio cultural imenso e recursos públicos limitados.
Na Itália, porém, o patrocínio das artes sempre coube à elite ou ao Estado, nunca à população em geral.
O MELHOR DA ITÁLIA
Ledo Prato, secretário-geral da fundação CittaItalia, que encabeça a campanha e está recolhendo os donativos, disse que: "Sem seu patrimônio cultural a Itália seria um país anônimo, e as pessoas estão se dando conta disso. E elas entendem que esse patrimônio gera não apenas prestígio e fama, mas também receita e desenvolvimento econômico."
Com isso em mente, os organizadores da campanha querem usar o dinheiro levantado para cuidar de obras de arte que interessam aos turistas e que muitas vezes estão nas regiões mais pobres do país. Quando os italianos doam dinheiro, por correio ou email, eles também têm o direito de enviar sugestões.
De acordo com Prato, um sítio que precisa urgentemente de trabalhos de conservação é Canne della Battaglia, o campo de batalha, situado no calcanhar da Itália, onde Aníbal derrotou os romanos em 216 a.C.
Outro é o Palácio Real da cidade de Caserta, no sul do país, erguido no século 18.
Os organizadores dizem que a carência de manutenção é grande no país, que tem 4,4 milhões de obras de arte.
Para 2005, o governo italiano reservou 32 milhões de dólares de seu orçamento para a manutenção de centenas de igrejas, museus, palácios e conventos. É menos do que a metade do que seria preciso, de acordo com estudos independentes.
Para alguns italianos, o problema é grande demais para ser resolvido apenas pela Itália e seus cidadãos.
Ivano Celentano, de 17 anos, opinou: "Nem o Estado nem os italianos deveriam ser obrigados a pagar tudo. Este patrimônio cultural pertence ao mundo inteiro. Os países mais ricos do mundo deveriam doar uma porcentagem de seu PIB para cuidar dele." |